Mais de dois meses depois das piores cheias dos últimos anos, Moçambique ainda tenta perceber o tamanho real da catástrofe. O Governo admite que os números finais da reconstrução ainda não estão fechados mas os dados que já existem dão uma ideia da dimensão do problema.
O ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salimo Valá, confirmou que as equipas técnicas continuam no terreno a fazer o levantamento dos prejuízos em vários sectores. Segundo o governante, só depois desse trabalho estará disponível o custo total do plano de reconstrução pós-cheias.
Entretanto, o Governo já adiantou uma estimativa preliminar: as infraestruturas destruídas e afectadas pelas inundações foram avaliadas em 644 milhões de dólares cerca de 537 milhões de euros. É um valor expressivo para um país que continua a negociar apoio com o FMI e o Banco Mundial.
O que as cheias deixaram para trás
Para entender porque é que a reconstrução vai demorar e custar tanto, basta olhar para os números do INGD. As cheias causaram mortes, afectaram 691.522 pessoas em 151.962 famílias, com 3.447 casas parcialmente destruídas, 771 totalmente arrasadas e mais de 154 mil inundadas.
No que diz respeito às estradas artéria vital para um país longo como Moçambique, as cheias danificaram cerca de três quilómetros da Estrada Nacional N1 e destruíram outras vias numa extensão de mais de 1.336 quilómetros no total. Pontes cortadas, comunidades isoladas, mercados sem acesso: o impacto económico vai muito além dos danos visíveis.
E não é caso isolado. As autoridades descrevem esta como a pior época chuvosa dos últimos anos, comparável aos eventos extremos de 2000 e 2001, quando o ciclone Eline e as enchentes mataram cerca de 700 pessoas e deixaram meio milhão de deslocados.
Cinco pilares para reconstruir o país
O plano que o Governo está a finalizar assenta em cinco frentes prioritárias: recuperação e assistência às populações afectadas; alojamento temporário e alimentação para famílias deslocadas; reabilitação de estradas e pontes; recuperação de escolas e unidades de saúde; e restauração dos sistemas de abastecimento de água.
O Governo reconhece que não basta reconstruir é preciso planificar melhor para proteger mais, reduzir perdas e garantir resultados duradouros. A ideia é que as novas infraestruturas sejam construídas com resiliência climática incorporada, e não apenas repostas como estavam antes.
Essa mudança de paradigma é urgente. A OMS classificou a situação em Moçambique como Emergência de Grau 2, alertando que sem financiamento atempado o risco de surtos de doenças e de mortalidade evitável aumenta consideravelmente.
FMI, Banco Mundial e a questão do financiamento
Questionado sobre alegadas divergências entre o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial relativamente ao apoio a Moçambique, Valá disse não haver motivos para alarme. O Governo, explicou, continua a trabalhar com o FMI em matérias de gestão da dívida, enquanto o Banco Mundial mantém a cooperação através de novos pacotes de financiamento para projectos de desenvolvimento.
Mas a conversa sobre de onde vem o dinheiro não é simples. A oposição, nomeadamente a ANAMOLA, apresentou um plano alternativo de reconstrução avaliado em 1,6 mil milhões de dólares, defendendo que 90% dos recursos necessários podem ser mobilizados internamente uma posição que questiona a dependência histórica do financiamento externo.
A diferença entre os 644 milhões do Governo e o 1,6 mil milhões da oposição não é apenas política. Reflecte visões distintas sobre o que é preciso fazer: reconstruir o que havia ou transformar estruturalmente o modelo de resposta a desastres.
Cabo Delgado, o BAD e o contexto mais amplo
O ministro Valá falava na cidade de Maputo à margem do lançamento de um projecto de reconstrução da província de Cabo Delgado, financiado pelo Banco Africano de Desenvolvimento sinal de que o país tenta avançar em várias frentes ao mesmo tempo.
O Fundo Árabe para o Desenvolvimento Económico e Social (BADEA) também anunciou que vai enviar equipas a Moçambique para levantar as necessidades e apoiar o plano de reconstrução, reforçando o interesse internacional na recuperação do país.
O que está em jogo vai além dos alicerces de casas e betão de pontes. Trata-se de saber se Moçambique vai aproveitar esta tragédia para construir um país mais preparado para o próximo ciclone, a próxima cheia porque, como a história mostra, haverá sempre uma próxima.
Fontes: INGD, Governo de Moçambique, OMS, Carta de Moçambique, Observador
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